Canguaretama resgata sua história e transforma fé, cultura e memória dos Mártires de Cunhaú em experiência turística
Quem visita o litoral sul do Rio Grande do Norte em busca de praias, natureza e descanso talvez não imagine que, a poucos quilômetros desse cenário turístico, existe um dos mais importantes lugares de memória religiosa e histórica do Brasil.
É Canguaretama, município que carrega em seu território uma história marcada pela fé, pela cultura, pela presença indígena e por um dos episódios mais conhecidos do período colonial potiguar: o martírio de Cunhaú, ocorrido em 16 de julho de 1645.
Foi no antigo Engenho Cunhaú, durante uma celebração religiosa na Capela de Nossa Senhora das Candeias, que o padre André de Soveral e dezenas de fiéis foram mortos. Séculos depois, a história permanece viva na memória da população e na devoção aos chamados Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, canonizados pelo Papa Francisco em 2017.
Em julho deste ano, o município deu mais um passo nessa direção com a estreia do Auto dos Mártires de Cunhaú, espetáculo realizado no dia 16 de julho, que levou para o palco, a céu aberto, uma narrativa que reuniu teatro, música e dança para contar o episódio histórico e suas repercussões na cultura e na religiosidade local. A encenação representa uma maneira contemporânea de aproximar as novas gerações de uma história que atravessa quase quatro séculos.
O Santuário dos Mártires de Cunhaú, a antiga área do Engenho Cunhaú e a Capela de Nossa Senhora das Candeias formam um conjunto de enorme significado para a religiosidade potiguar. O município também mantém sua ligação com a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade, fortalecendo a dimensão religiosa da identidade local.
A memória do episódio de 1645 foi construída durante séculos a partir de diferentes narrativas históricas e religiosas. Por isso, iniciativas que envolvem comunidades indígenas e procuram ampliar o olhar sobre essa história podem contribuir para uma compreensão mais abrangente do passado e da identidade de Canguaretama. O município está inserido em uma região cuja formação histórica está profundamente relacionada aos povos originários. É justamente aí que cultura e turismo podem caminhar juntos: preservar a memória, ouvir diferentes vozes e transformar o patrimônio histórico em conhecimento e experiência para quem visita.
Canguaretama tem ainda a vantagem de estar inserida em uma das regiões turísticas mais conhecidas do Rio Grande do Norte, próxima a destinos como a praia da Pipa, Barra do Cunhaú e outros atrativos do litoral sul. Isso permite pensar em uma integração entre o turismo de sol e mar, o turismo religioso, o turismo cultural e o turismo de experiência.
O visitante que chega à região para conhecer as praias pode encontrar também uma história que remonta ao século XVII. E aquele que chega movido pela fé pode descobrir uma cidade com manifestações culturais, patrimônio, gastronomia, paisagens e comunidades que ajudam a contar uma história muito maior.
O desafio agora é transformar todo esse patrimônio em um produto turístico estruturado, com roteiros permanentes, sinalização, capacitação de guias, calendário cultural, integração com as agências e receptivos e divulgação regional e nacional. O Auto dos Mártires de Cunhaú pode ser uma dessas ferramentas. Mais do que um espetáculo apresentado uma vez por ano, ele pode se transformar em parte de um calendário cultural capaz de atrair visitantes, movimentar a economia local e estimular a participação de artistas, artesãos, comerciantes, restaurantes, meios de hospedagem, guias e comunidades.
Canguaretama pode, portanto, assumir cada vez mais seu lugar no mapa do turismo religioso e cultural do Rio Grande do Norte – não apenas como a “Terra dos Mártires”, mas como um destino onde história, fé, cultura, identidade e turismo se encontram.

