Paçoca de Pilão: quando o sabor vira memória do Rio Grande do Norte
Não é apenas comida.
É história socada no pilão.
A recente oficialização da Paçoca de Pilão como Patrimônio Cultural, Histórico e Imaterial do Rio Grande do Norte não reconhece só uma receita – reconhece um modo de vida. Um gesto ancestral que atravessou gerações e continua presente nas casas, feiras, mercados e, principalmente, na memória afetiva do povo potiguar.
A paçoca nasceu da necessidade. No sertão, onde nada podia ser desperdiçado, a carne de sol era desfiada e socada no pilão junto com farinha de mandioca e, quase sempre, com a manteiga da terra. O pilão – utensílio indígena herdado das primeiras populações – virou cozinha, ferramenta e símbolo. Cada pancada não servia apenas para misturar ingredientes: servia para unir família.
Era alimento de vaqueiro, de viagem longa, de sustança.
Era o “fast food” do sertanejo muito antes da palavra existir.
Com o tempo, o que era sobrevivência virou tradição. O café da manhã nordestino passou a ter cheiro próprio: o da manteiga quente envolvendo a paçoca, acompanhada de banana, macaxeira, cuscuz ou ovo. Quem é do Rio Grande do Norte sabe – não se come paçoca apenas com a boca; come-se com lembrança.
Reconhecer a paçoca como patrimônio é também reconhecer a sabedoria popular. É dizer que cultura não está apenas nos teatros, igrejas ou museus. Ela está também na cozinha de barro, na mão calejada que segura o pilão e na avó que ensina sem receita escrita.
O turismo moderno procura experiências autênticas. E poucas são tão genuínas quanto sentar à mesa simples do interior e provar uma paçoca feita na hora. Ali, o visitante não experimenta só um prato – experimenta o território.
Porque a paçoca não é só gastronomia.
É identidade.
É pertencimento.
É memória comestível.
E agora, oficialmente, é patrimônio de todos nós.

