Entre aeroportos e marés: um começo de ano que virou roteiro
A gente acha que começa uma viagem quando o avião decola. Não começa.
A viagem começa quando alguma coisa dá errado.
Saímos do Rio de Janeiro no dia 28 de dezembro com destino a Natal. Era para ser um trajeto simples, desses que a gente faz já pensando no primeiro banho de mar. Mas o turismo, às vezes, gosta de brincar com a gente. Perdemos a conexão em Brasília e, de repente, aquilo que seria apenas uma escala virou uma estadia de mais de 24 horas.
E foi ali que a viagem começou de verdade.
Brasília não estava no plano, mas entrou na história. Caminhamos pelo Eixo Monumental, vimos a geometria impossível da cidade, os vazios que impressionam mais do que multidões e aquela sensação curiosa de que a capital parece ter sido desenhada primeiro no céu e só depois construída no chão. A escala virou passeio, o imprevisto virou memória – e aprendemos uma velha lição do viajante: às vezes o destino é só uma sugestão.
Quando finalmente chegamos a Natal, já não era apenas uma chegada. Era quase um reencontro. Passamos o Réveillon com o vento quente de Ponta Negra, o barulho do mar constante e aquela atmosfera que só o litoral potiguar tem no início do ano – uma mistura de esperança, sal e luz.
Mas a estrada continuou chamando.
Seguimos para a Baía da Traição, na Paraíba, onde o litoral muda de ritmo. Ali o tempo anda mais devagar. As falésias, as aldeias indígenas potiguara e o silêncio das praias lembram que turismo também pode ser contemplação. Não é sobre fazer, é sobre sentir.
Voltamos a Natal apenas para pegar fôlego e partimos novamente, dessa vez rumo a Macau. A cidade do sal é um capítulo à parte. Há algo de cinematográfico ali: os montes brancos das salinas, a luz refletida no chão e a sensação de estar num lugar que pouca gente conhece de verdade. Em Diogo Lopes, então, o litoral parece guardar uma versão mais antiga do Rio Grande do Norte – simples, aberto, sem pressa e com o vento dominando tudo.
Regressamos a Natal já com a viagem transformada em coleção de pequenas histórias. E foi ali que fechamos o ciclo, passando o Carnaval na cidade. Depois de tantos deslocamentos, percebemos que o destino final não era exatamente um lugar. Era o percurso.
Ela (Nereida Vinhaes), morando em Petrópolis/RJ. Eu (Paulo Lopes/Beto), em Natal/RN. Entre voos, estradas e praias, a ponte aérea virou mais do que distância – virou roteiro afetivo.
No fim das contas, não fizemos apenas uma viagem de fim de ano.
Fizemos um recomeço.

