Memórias de um secretário de turismo: quando Touros celebrou o abacaxi
Há histórias do turismo que não começam em aeroportos, hotéis ou resorts.
Às vezes, começam no roçado.
No início dos anos 2000, quando eu Paulo Lopes assumi a Secretaria de Turismo de Touros, no litoral norte do Rio Grande do Norte, o município era conhecido por dois símbolos fortes: o imponente Farol do Calcanhar, considerado o maior farol da América Latina, e a posição geográfica que nos rendeu o apelido de Esquina do Continente.
Mas havia outra riqueza espalhada pela paisagem: o abacaxi.
Naquela época, Touros vivia um auge na produção da fruta. Os roçados se multiplicavam pela região e o município figurava entre os maiores produtores do estado. O abacaxi sustentava famílias, movimentava a economia rural e fazia parte da identidade local.
Foi numa dessas conversas com produtores e lideranças da região que surgiu uma ideia aparentemente simples:
E se a gente transformasse o abacaxi em festa?
A proposta parecia ousada para um município pequeno. Mas no turismo, muitas vezes as boas ideias nascem exatamente daquilo que já faz parte da vida das pessoas.
Começamos então a articular o que viria a ser o Festival do Abacaxi de Touros.
Não foi algo que surgiu de um dia para o outro. Foi construção coletiva. Buscamos apoio institucional, mobilizamos a iniciativa privada e contamos com parceiros importantes, como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Norte (EMATER), que ajudou a fortalecer a ligação entre agricultura e evento cultural.
A cada reunião, o projeto ganhava corpo.
Até que chegou o dia de montar o palco.
E não era um palco qualquer. Conseguimos o apoio da Secretaria de Turismo de Natal, que nos cedeu uma grande estrutura montada na beira da praia, transformando o litoral de Touros em um verdadeiro cenário de celebração.
O festival ganhou música, gastronomia e cultura popular.
Mas o momento mais emblemático foi a apresentação da Orquestra Sanfônica de Campina Grande (PB), reunindo dezenas de sanfoneiros em um espetáculo que misturava tradição nordestina e emoção coletiva.
O vento do litoral soprava forte.
O som das sanfonas ecoava pela noite.
E, espalhado pelas barracas e mesas, estava o verdadeiro protagonista da festa: o abacaxi de Touros.
Naquele momento talvez poucos percebessem, mas a cidade estava experimentando algo que hoje se tornou tendência no mundo inteiro: transformar identidade local em experiência turística.
Hoje se fala muito em turismo de base comunitária, turismo de experiência, economia criativa.
Mas lá atrás, em Touros, a lógica já era essa – mesmo que ainda não tivesse nome sofisticado.
A lição que ficou daquele festival é simples e poderosa:
O turismo não nasce apenas da paisagem.
Nasce daquilo que o povo planta, colhe e celebra.
E naquela época, no litoral norte do Rio Grande do Norte, o turismo também nasceu entre fileiras de abacaxi.

