Do frio da serra ao sol do litoral

Entre o frio que recolhe e o sol que insiste: quatro anos entre a serra e o mar

Ela (Nereida Vinhaes) acorda cercada de montanhas. O dia nasce com neblina leve, o frio pede café quente e o silêncio da serra parece conversar com o tempo. Ele (Paulo Lopes/Beto) desperta com o sol entrando sem pedir licença, o vento salgado vindo do mar e a certeza de que o dia já começa quente. Ela vive na Serra de Petrópolis, na Cidade Imperial. Ele mora em Natal, a Cidade do Sol.

Durante quatro anos, sem que combinassem, dividiram o calendário entre si. Enquanto um vivia o inverno rigoroso da serra – casacos, lareiras improvisadas e tardes que escurecem cedo – o outro atravessava verões intermináveis, onde o azul do céu parece não ter fim e o corpo aprende a conviver com a luz constante.

Na primavera, ela via a cidade florescer entre casarões e jardins históricos. As cores surgiam delicadas, quase tímidas, rompendo o cinza do frio que se despedia. Ele, ao mesmo tempo, percebia a estação de forma diferente: menos flores, mais vento, o mar ligeiramente mais agitado e um sol que nunca deixa de ser protagonista.

O outono trazia para ela folhas caindo, ruas mais silenciosas e um ar de contemplação. Para ele, era apenas uma mudança sutil – o calor um pouco mais manso, as noites mais agradáveis, o cotidiano seguindo seu ritmo ensolarado, quase sem avisar que o ano avançava.

E assim, entre um frio que pede pausa e um calor que convida ao movimento, as estações foram se alternando como capítulos de uma mesma história contada em dois cenários opostos. O Brasil, esse país de muitos climas, cabia inteiro nessa geografia afetiva.

No fim das contas, perceberam que o tempo não passa igual para todos. Há quem meça os anos pela queda da temperatura, pelo cheiro da chuva fria ou pelo vapor do café. E há quem conte o tempo pelo nascer do sol, pela constância do calor e pelo sal que gruda na pele.

Quatro anos depois, entenderam que não viviam realidades distantes, mas complementares. Enquanto um aprendia a desacelerar no frio, o outro seguia aprendendo a resistir ao sol. E assim, entre a serra e o mar, as estações ensinaram que o Brasil também é feito de contrastes – e que todos eles cabem na mesma história.

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