Escala 6X1

Fim da escala 6×1: o turismo precisa entrar na conta dessa discussão

Por Paulo Lopes – Turismo no Ar

O debate sobre o fim da escala 6×1 chegou a um momento decisivo no Congresso Nacional. A proposta que prevê dois dias de descanso semanal e redução gradual da jornada para 40 horas está avançando no Senado e tem votação prevista na Comissão de Constituição e Justiça nesta quarta-feira, 2 de setembro.

É um tema que vai muito além das relações trabalhistas. Ele mexe diretamente com a economia, com os custos das empresas, com a geração de empregos e, particularmente, com uma das atividades que mais dependem de mão de obra: o turismo.

Se uma empresa precisa contratar mais trabalhadores para manter a mesma operação, naturalmente haverá aumento da folha. Se aumentam os custos de operação, surge uma pressão sobre os preços. No turismo, essa conta pode chegar à diária do hotel, ao preço da refeição, ao serviço turístico, ao passeio, ao transporte e a toda a cadeia que movimenta o visitante.

A própria FBHA cita estudo da CNC segundo o qual o turismo está entre os segmentos mais vulneráveis aos efeitos da mudança, justamente pela intensidade da utilização de mão de obra e pela dificuldade de substituir determinadas funções por automação.

Não podemos correr o risco de tornar mais caro viajar pelo Brasil justamente quando precisamos estimular o turismo doméstico, aumentar a permanência dos visitantes, gerar empregos e fortalecer destinos que dependem fortemente da atividade turística.

Também é preciso reconhecer que a busca por melhores condições de trabalho é legítima. Mais tempo para descanso, convivência familiar e qualidade de vida pode produzir trabalhadores mais satisfeitos e, potencialmente, serviços melhores.

A questão, portanto, não deveria ser simplesmente “contra ou a favor do fim da escala 6×1”. Como melhorar a qualidade de vida do trabalhador sem comprometer a capacidade de sobrevivência das empresas, a geração de empregos e a competitividade do turismo brasileiro?

A realidade de um pequeno restaurante familiar no interior do Rio Grande do Norte não é necessariamente a mesma de um grande resort de uma capital brasileira. Uma pousada de dez apartamentos não possui a mesma estrutura de um hotel com centenas de unidades.

Por isso, talvez seja prudente que o debate contemple mecanismos de negociação coletiva, transição e adaptação setorial, em vez de simplesmente impor uma fórmula única para realidades tão diferentes. O próprio histórico da discussão no Congresso mostra que o turismo já vem sendo tratado como um setor que merece análise específica. Em maio, a Câmara aprovou requerimento para uma audiência pública dedicada justamente aos impactos da redução da jornada e do fim da escala 6×1 sobre turismo, hotelaria, bares e restaurantes.

O Brasil não pode discutir uma mudança estrutural na jornada de trabalho sem ouvir quem mantém hotéis abertos, restaurantes funcionando, parques recebendo visitantes, aeroportos movimentados e destinos turísticos operando todos os dias do ano.

Da mesma forma, não pode ignorar os trabalhadores que fazem toda essa engrenagem funcionar. É preciso colocar os dois lados da mesa. O Turismo no Ar entende que o momento exige diálogo, estudos, números e negociação.

O turismo brasileiro precisa de trabalhadores valorizados, de empresas competitivas, de preços que caibam no bolso do visitante. E precisa, sobretudo, de segurança para planejar o futuro.

O fim da escala 6×1 pode representar uma evolução nas relações de trabalho. Mas, para o turismo, essa evolução precisa ser construída com responsabilidade, diálogo e os pés no chão. Porque, no final das contas, quem paga a conta do turismo é o turista e quem sustenta o turismo é o trabalhador.

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