Quando o turismo começou a olhar para os municípios: a semente lançada pela Fundação Augusto Viveiros
Por Paulo Lopes – Turismo no Ar
Resgatar a memória do turismo potiguar também é reconhecer iniciativas que, muitas vezes, ficaram fora dos registros oficiais, mas ajudaram a construir as bases do desenvolvimento turístico do Rio Grande do Norte.
É o caso de uma experiência iniciada em meados da década de 1990, a partir da Fundação Augusto Viveiros, instituição ligada ao então deputado federal Augusto Carlos Viveiros, eleito pelo Rio Grande do Norte nas eleições de 1994 e empossado em 1995.
Entre as ações desenvolvidas pela Fundação na área social, surgiu uma proposta que, para aquele momento, tinha um caráter inovador: conhecer, identificar e registrar a Vocação Turística dos Municípios do Litoral Potiguar.
A iniciativa partia de uma compreensão que hoje parece óbvia, mas que, naquela época, ainda precisava ser construída: o turismo não deveria ser pensado apenas a partir dos grandes destinos ou das ações concentradas no Estado. Era necessário conhecer os municípios, identificar seus atrativos, suas potencialidades, sua infraestrutura, sua cultura e, principalmente, entender aquilo que cada território poderia oferecer ao visitante.
Foi nesse contexto que tivemos a oportunidade de coordenar o projeto de inventário da vocação turística dos municípios do litoral do Rio Grande do Norte. O trabalho contou com a participação de instituições de ensino que já formavam profissionais para o setor, entre elas a Universidade Potiguar, a FACEX e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A partir dessa parceria, foram mobilizadas equipes de estudantes e estagiários dos cursos de Turismo para realizar o levantamento diretamente nos municípios.
O projeto percorreu o litoral potiguar, começando em Baía Formosa e avançando em direção ao litoral norte, chegando a Ceará-Mirim. Município por município, foram sendo identificados atrativos naturais, manifestações culturais, equipamentos, serviços, infraestrutura e demais elementos capazes de revelar a vocação turística de cada localidade.
Mais do que simplesmente reunir informações, aquele trabalho lançava uma semente. A semente da municipalização do turismo. Estamos falando de uma época em que o debate sobre a descentralização da atividade turística ainda começava a ganhar força no Brasil. A ideia de que o município deveria assumir protagonismo na construção de sua própria política de turismo ainda precisava ser compreendida e incorporada pelas administrações públicas.
O inventário permitia justamente isso: oferecer aos municípios um primeiro retrato organizado de suas potencialidades e criar condições para que prefeitos, gestores públicos, empresários e comunidades começassem a enxergar o turismo como instrumento de desenvolvimento local.
Hoje, quando se fala em inventário turístico, planejamento municipal, regionalização e protagonismo dos municípios, esses conceitos parecem fazer parte da rotina do setor. Mas é importante lembrar que houve um tempo em que era preciso abrir caminhos e construir essa consciência.
E, no Rio Grande do Norte, uma dessas experiências começou ali, na década de 1990, com o apoio da Fundação Augusto Viveiros e do mandato do deputado federal Augusto Carlos Viveiros, em parceria com à Comissão de Turismo Integrado do Nordeste-(CTI/NE) as instituições de ensino e com a participação de jovens estudantes de Turismo que foram a campo conhecer a realidade dos municípios.
Talvez muitos dos que hoje trabalham com turismo no Estado sequer conheçam essa história. Por isso, recuperar essa memória é mais do que olhar para o passado. É reconhecer que o desenvolvimento turístico potiguar foi construído por muitas mãos, por diferentes instituições e por iniciativas que, em determinados momentos, tiveram a coragem de fazer aquilo que ainda não era uma prática consolidada.
O inventário da vocação turística do litoral potiguar foi uma dessas iniciativas. E, olhando para trás, fica a certeza de que aquela proposta ajudou a colocar uma ideia importante na agenda: cada município tem uma história, uma identidade e uma vocação turística própria e precisa ser protagonista na construção do seu futuro. É uma memória que merece ser registrada. E, sobretudo, compartilhada com as novas gerações que hoje ajudam a construir o turismo do Rio Grande do Norte.

